TEA nível 1: quando “leve” não significa simples

 

TEA nível 1: quando “leve” não significa simples

O autismo nível 1 costuma ser associado a maior autonomia, mas isso não significa ausência de dificuldades ou de sofrimento. A pessoa pode estudar, trabalhar, conversar e levar uma vida relativamente independente, enquanto precisa de muito esforço para lidar com relações sociais, mudanças, organização e estímulos sensoriais.

No DSM-5-TR, o diagnóstico envolve dificuldades nos três aspectos da comunicação social: reciprocidade socioemocional, comunicação não verbal e capacidade de desenvolver, manter e compreender relacionamentos. 

Também devem aparecer pelo menos dois entre quatro grupos de características: comportamentos repetitivos ou estereotipados, interesses restritos e intensos, rigidez cognitiva ou comportamental e alterações sensoriais. 

Essas características começam no desenvolvimento, podem ficar mais evidentes quando as exigências aumentam ou ser mascaradas, precisam causar impacto importante na vida e não devem ser mais bem explicadas por deficiência intelectual.

E na prática, quando o autismo de nível 1 de suporte aparece?
Na prática, podem aparecer dificuldades para acompanhar uma conversa, perceber quando o outro quer mudar de assunto, compartilhar interesses ou compreender certas regras sociais. Algumas pessoas falam longamente sobre temas de interesse, tiveram histórico de serem consideradas “estranhas” ou sofreram bullying, podem rir em momentos inadequados ou ter dificuldade com o espaço pessoal do outro. 
Na comunicação não verbal, podem existir dificuldades para interpretar expressões faciais, sentimentos, mudanças no tom de voz, humor, piadas, ironias e mensagens indiretas. A pessoa pode ser bastante literal, ter dificuldade para expressar o que sente, parecer mais séria ou emocionalmente distante e precisar observar ou imitar outras pessoas para saber como agir. O contato visual pode ser reduzido, excessivamente controlado ou desconfortável, e a fala pode apresentar pouca variação de entonação.
Os relacionamentos também podem exigir muito esforço. É comum existir insegurança em situações sociais, análise constante do próprio desempenho, isolamento, dificuldade para iniciar interações ou participar de eventos e dificuldade para criar ou manter amizades. Algumas relações acabam se organizando principalmente em torno de interesses em comum.
No outro grupo de características, podem aparecer ecolalia, alinhamento de objetos, movimentos repetitivos das mãos ou do corpo, colecionismo, interesses muito intensos, dificuldade com mudanças de rotina e repetição de roupas, trajetos ou alimentos. Também pode haver sensibilidade aumentada ou reduzida a sons, luzes, texturas, cheiros, temperatura e dor.
Com o tempo, algumas pessoas aprendem a esconder parte dessas dificuldades. Podem ensaiar conversas, estudar comportamentos sociais, controlar o olhar, decorar piadas e ironias, criar roteiros para interações, esconder movimentos repetitivos ou direcionar interesses intensos para áreas socialmente valorizadas, como estudo ou trabalho. Algumas preferem interações pela internet por exigirem menos comunicação presencial. Esse processo é conhecido como camuflagem social.
O problema é que parecer adaptado não significa estar confortável. A camuflagem pode gerar desgaste emocional. Também podem existir dificuldades de organização e de mudança entre atividades, conflitos nos relacionamentos, solidão, pouco suporte social, sensação de inadequação ou culpa e sofrimento diante de estímulos sensoriais. A ingenuidade social pode ainda aumentar a vulnerabilidade a manipulações, abusos e experiências traumáticas. Em alguns casos, essas dificuldades também repercutem na autonomia e na vida profissional.

Por isso, na avaliação neuropsicológica, não basta observar se a pessoa consegue conversar, estudar, trabalhar ou se relacionar. É importante compreender como ela consegue, quanto esforço isso exige e qual é o impacto desse esforço em sua vida.

Maior autonomia não significa menor necessidade de compreensão ou suporte.

Referência Bibliográfica:

Costa, AJ, Tannure, T., Antunes, AM (Orgs.) (2025). Leve para quem? 2: transtorno de espectro autista. Editora Ampla.

Por: Calebe F. (CRP16/09365) 

* Este texto integra o Editorial de Psicologia da SkillKaizen e foi elaborado por um psicólogo, com finalidade informativa e educativa. O conteúdo não substitui avaliação psicológica, neuropsicológica ou diagnóstico individualizado.

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